verbo “aquilombar” foi usado pelos palestrantes negros, significando “lugar de descanso”, de “sentir-se em África”, durante o ato “Inflorescências da Liberdade”, no Centro Cultural do Legislativo macaense, na noite desta quarta-feira (13). Quadros de escravizados, corrente para pescoço e mãos, roupa manchada de vermelho simulando sangue, chicote, e outros instrumentos de tortura ambientaram o local.
Outra palavra da mesa-redonda inicial foi “ocupação”, usada pela escritora e pesquisadora macaense Conceição de Maria, especializada em Estudos Culturais e Históricos da Diáspora e Civilização Africana. “Estamos aqui, hoje, na Casa de Leis dos brancos, ocupando a Casa Grande”, afirmou ela, referindo-se ao fato de que o prédio já foi a sede da Câmara, e também residência de um traficante de escravizados, Francisco Domingues de Araújo.
O historiador Meynardo Carvalho, diretor do Centro Cultural, frisou o ineditismo da iniciativa. “É a primeira vez que acontece aqui a discussão da história e da resistência negra, um fato de enorme simbolismo”. Ele lembrou a importância do busto do líder quilombola Carukango, em frente à sede antiga. A escritora e roteirista Daiana de Souza representou a nova geração de intelectuais do movimento negro macaense. “Meynardo e Conceição participaram da minha formação e me ajudaram a me ver como pessoa negra”.
A dificuldade de Daiana, em assumir a negritude, a aproxima da experiência do artista plástico Bernardo Beraldini, autor das obras expostas na sala. “Não sabia nada da minha ancestralidade. Mas minha mãe me contou do seu sofrimento, trabalhando desde os oito anos. Então, fui pesquisar e me encontrei. E isso gerou a minha arte”.
Catarse, luta e conscientização da sociedade
Após a mesa-redonda, seguiu-se um recital. Pedro Dorneles, estudioso de identidade e decolonialismo, leu conto de Itamar Vieira Junior, sobre uma mulher que foge, lembrando dos últimos momentos com seu senhor e sua senhora. A narração teve efeito catártico no público, que continuou, em seguida, impactado pelas artistas do Grupo Clara. A performance “Tributo a Clara Nunes” teve música, dança e capoeira, homenageando a cantora, um dos maiores símbolos da luta contra o racismo religioso.
O vereador Luciano Diniz (Cidadania) participou de todo o ato. “Combater o racismo não é uma responsabilidade só das pessoas negras, mas de toda a sociedade”. O evento concluiu-se com uma vivência de Jongo, proporcionada pelo capoeirista e jongueiro Mestre Bonde, com os presentes saboreando um caldo quente de feijão.