Em 1960, os vereadores macaenses cassaram o ex-prefeito Eduardo Serrano, apontado como homossexual, alegando que não tinha “condições psicofísicas” de exercer o cargo. Após 66 anos, a Câmara Municipal exibiu, na noite desta terça-feira (30), em sua sede atual, o documentário “O Prefeito Impeachmado – as relações de poder e homofobia na antiga Macaé”, de Marcelo Fonseca. A sessão foi seguida de uma roda de conversa.
“Por que esse fato é tão pouco conhecido? Quem tem o direito de dizer o que deve ser esquecido? É histórico que esta mesma Casa sirva, hoje, como espaço de disputa da memória sobre Serrano”, disse Fonseca. O diretor do Centro Cultural do Legislativo, Meynardo Rocha, comentou: “Poucos anos depois, tivemos o golpe civil militar. A ditadura começou antes em Macaé”.
A ex-vereadora Ivânia Ribeiro, que era criança na época e conheceu Serrano, integrou a mesa. “Houve uma verdadeira lavagem cerebral na população, promovida pelas elites provincianas, inclusive a imprensa, com calúnias sobre a conduta moral de Serrano”.
Ele chegou a conseguir na Justiça o direito de reassumir o mandato. Porém, acabou renunciando, devido ao não repasse de verbas estaduais, pela influência dos adversários, além de denúncias de improbidade administrativa, entre outras causas ligadas ao poder dos fazendeiros da cidade. O ódio contra ele tinha também outros motivos bem concretos: ferroviário na época, Lauro Martins lembrou que Eduardo pressionava os patrões para assinar a carteira de seus empregados. “Depois que ele deixou o governo, um contador realizou uma auditoria e afirmou que não havia qualquer irregularidade”, relatou Ivânia
O evento “Cinema e Poder” foi realizado com parceria da Outrar Produções, idealizadora do documentário, do Ambulatório LGBTQUIAPN+, da Comissão de Direitos Humanos e Combate às Violências da UFRJ/Macaé, do Núcleo de Gênero, Diversidade e Sexualidade (Nugedis) do IFF Macaé e da Coordenadoria de Igualdade de Gênero e Diversidade.
Auditor do TRE
Conhecido como “Pai dos Pobres”, o auditor fiscal do Tribunal Regional Eleitoral, que promovia ações sociais e providenciava documentos para as pessoas empobrecidas surpreendeu ao vencer as eleições. A neta Mariana Adolfo, produtora cultural, relata que sempre soube da história. “Pela minha profissão, eu poderia ter contado. Mas na nossa família, mesmo tendo orgulho do meu avô, tudo isso é ainda muito duro. Fico feliz que Marcelo tenha feito isso”.
O filme
Com locação no Centro Cultural, onde funcionava a Casa legislativa na época, o documentário aproveita a arquitetura antiga de uma das salas. O roteiro intercala falas de Meynardo, Ivânia e da historiadora Cleris Golzio.
As cenas têm muito pouca luz, com a narração da neta Mariana Adolfo, que aparece lendo os documentos sobre o caso. A escuridão é uma referência ao corte de energia, feito como boicote ao político depois que reassumiu o cargo, mas também à solidão e ao abandono que Eduardo sentiu nos poucos dias em que se manteve no governo.
O filho adotivo, Eduardo Vieira Serrano, dá um depoimento ao final, contando que sua lembrança é de que teve um pai amoroso, que todos os dias lhe dava o dinheiro da merenda e cuidava para que o uniforme escolar e o cabelo estivessem perfeitos.
As circunstâncias e a data da morte do ex-prefeito não são conhecidas. O documentário de Fonseca ainda não está disponível para o grande público.








